Minha avó, Maria, completou no dia 12 de fevereiro último, 92 anos. Ela está acometida do mal de Alzheimer. Comparecemos: 4 de seus 8 filhos, netos, bisnetas e nora para lembrar de quem ela foi e quem ela é. Nem todos os filhos puderam comparecer por motivos vários e tenho a nítida impressão de que não foi ela quem não desfrutou da presença dos mesmos, mas eles é que perderam a oportunidade de desfrutar da presença dela. Só Deus sabe se estará conosco até o próximo aniversário, em 2010...Ela foi uma grande mulher, não porque tenha um diploma universitário, não porque ganhou algum prêmio Nobel da paz ( e acho que deveria), não porque trabalhou fora de casa para gerar o sustento dos filhos.Tudo isso é louvável, mas acho mais louvável o fato de uma mulher semi-analfabeta, que teve 8 filhos( fora os que perdeu), dona-de-casa e apaixonada por plantas, gatos e por agradar aos outros, não vivesse reclamando da vida, murmurando pelos cantos seus males ou suas dores... problemas teve como todo o mundo, e como teve... mas nenhum deles a fez desistir de ser carinhosa, meiga, protetora e feliz!!!
Minha avó representou muito para mim, ela cuidava de mim enquanto minha mãe trabalhava. Ela me ensinou a compartilhar as minhas coisas, a observar os dois lados da moeda, me incentivou a estudar( quem sabe me tornar uma jornalista- dizia ela), a gostar da vida, a gostar da alegria, a suportar os embates da vida. Às vezes sinto vergonha de me aborrecer por tão pouco, daí lembro dela e procuro imitar sua maneira de fazer as coisas, sem reclamar. Claro que nada é perfeito, me mimou tanto que tive e ainda tenho dificuldades em administrar uma casa. Mas sua lembrança me faz mudar um pouco essa fraqueza. Também não acho que saber administrar eximiamente uma casa seja sinônimo de felicidade, há coisas que não se resolvem apenas com tudo em perfeita ordem dentro de casa.
As práticas cotidianas contam muito mais e quanto a isso tenho ótimas lembranças: meus avós dançando na sala, ela cantando e labutando, ambos conversando longamente sobre os problemas do cotidiano, rindo de alguma piada, meu avô lavando calças jeans dele, para poupá-la (ainda não tinham máquina de lavar, veio depois),enfim... vivendo, compartilhando, mostrando para uma menina tão pequena o que é diálogo, o que é amor de verdade.
Tem gente que nunca está satisfeito com nada, parece não gostar da alegria ou não ter descoberto que ela está dentro da gente, se esperarmos a alegria chegar pelas benesses dos outros, estamos encrencados... minha avó tinha, e acho que agora mais do que nunca tem, o dom de passar por cima das provações da vida com muita alegria e dignidade.
Nunca a ouvi reclamar duas vezes da mesma coisa. Vivia cada dia de uma vez, sem cobrar tanto do seu futuro e nem do seu passado. Zelou pelo meu avô até o último momento, ele também foi acometido pelo mesmo mal(Alzheimer) e faleceu em fevereiro de 2004, e até nisso compartilharam a vida e , um dia, também compartilharão a morte. Ele aceitou a Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador e ela também, embora não tenham lembrança desta decisão, a fizeram enquanto houve lucidez, portanto é legítima e creio que o Senhor o recebeu na glória, assim como a receberá também, pois ambos fizeram esta profissão de fé em vida e enquanto tinham lucidez. Enquanto ele esteve vivo, ela estava lúcida e após sua morte, iniciou o mesmo processo pelo qual ele passou. Ele faleceu aos 89 anos e ela, mais uma vez me admiro, mesmo depois de tantas lutas, tantos desafios, tantos acontecimentos e acometimentos ao longo de toda sua vida, ainda está entre nós.
Graças à Deus pela vida da minha avó!!! Pois Ele não esquece quem somos e para que existimos! Se hoje sou quem sou, agradeço a ela e ao meu avô também. Claro que minha mãe também conta e muito, mas como estou homenageando a vovó, deixo outros comentários para outro momento.
Antes de cantarmos "parabéns", pedi a palavra e fizemos uma oração pela sua vida. Cantamos e nos alegramos com ela, como ela sempre fazia por mim e por qualquer pessoa do nosso convívio. Ela se emocionou e ao me despedir senti algum fragmento de memória, aquele abraço caloroso que ela sempre nos dava, e alguma pergunta tentando identificar se havíamos ficado satisfeitos com tudo...
Como o carinho é importante, como o reconhecimento e gratidão fazem a gente mais feliz... eu fiquei feliz com a sua momentânea lembrança de que estava num evento em família, e como sempre, esboçou alegria em servir aos outros, como sempre fazia. Já não importa tanto se lembrou que aquele era seu dia especial, para ela todos os dias eram especiais.








